A responsabilidade dos pastores

Por Hermisten Costa

À igreja foi confiada a Palavra de Deus, a qual ela deve preservar em seus ensinamentos e prática ( Rm3.2; 1 Tm 3.15).

Calvino entendia que “a verdade, porém, só é preservada no mundo através do ministério da Igreja. Daí, que peso de responsabilidade repousa sobre os pastores, a quem se tem confiado o encardo de um tesouro tão inestimável. Devemos ser muito cautelosos, não permitindo que algo (estranho) seja adicionado à íntegra doutrina do evangelho.

Escrevendo a Cranmer, provavelmente em julho de 1552, Calvino diz: “a sã doutrina certamente jamais prevalecerá até que as igrejas sejam mais bem providas de pastores qualificados que possam desempenhar com seriedade o ofício de pastor”. Fiel à sua compreensão da relevância da pregação bíblica, Calvino usou de modo especial o método de expor e aplicar quase todos os livros das Escrituras à congregação. A sua mensagem se constitui num monumento de exegese, clareza e fidelidade à Palavra, sabendo aplicá-la com maestria aos seus ouvintes. De fato, não deixa de ser surpreendente o conselho de Jacobus Arminius, antigo aluno de beza: “Eu exorto os estudantes que depois das Escrituras Sagradas leiam os comentários de Calvino, pois eu lhes digo que ele é incomparável na interpretação da Escritura”.

A fecundidade exegética de Calvino tinha sempre uma preocupação primordialmente pastoral. Para ele, o fundamento da verdadeira teologia e da genuina exegese estava no ofício pastoral. Assim, o direcionamento não era simplesmente acadêmico. Percebe-se que para Calvino o academicismo, por si só, era irrelevante para a vida da igreja. Notamos em suas obras que os pontos em que ele revela maior erudição – demonstrando conhecer bem o hebraico, o grego, o latim, os pais da Igreja etc. – visam sempre esclarecer determinada doutrina ou passagem bíblica que tem pontos de debate ou que são passíveis de interpretações diferentes. No entanto, percebemos que a sua erudição é demonstrada em sua simplicidade; ou seja: falar de assuntos complexos de forma simples e clara, isso sim, é profundidade.

A convergência de sua interpretação era a vida da Igreja, entendendo que as Escrituras foram dadas visando à nossa obediência aos mandamentos de Deus. Logo, conforme já frisamos, a sua preocupação estava longe de ser simplesmente acadêmica. Ele entendia que “a pregação é um instrumento para a consecução da salvação dos crentes”, e que, “embora não possa realizar nada sem o Espírito de Deus, todavia, através da operação interior do mesmo Espírito, ela revela a ação divina muito mais poderosamente”. O Espírito está unido com a Palavra, porque sem a eficácia do Espírito, a pregação do Evangelho de nada adiantará, mas permanecerá estéril”. “Deus, a Si prescrevendo a iluminação da mente e a renovação do coração, adverte ser sacrilégio, se o homem a si arroga alguma parte de uma e outra dessas duas operações”.

A contribuição de Calvino nas diversas áreas do pensamento humano – economia, política, ética – emerge, em geral, de seus sermões e comentários bíblicos. Ele não tinha a pretensão de revolucionar nenhuma dessas áreas; antes, deseja interpretar as Escrituras, colocando-as diante do povo, a fim de que este pudesse entendê-la e colocá-la em prática, tendo uma dimensão mais ampla da fé cristã em todo o âmbito de nossa existência. O princípio orientador de sua teologia é a glória de Deus.

Estima-se que Calvino, durante os seus trinta e cinco anos de ministério – pregando dois sermões por domingo e uma vez por dia em semanas alternadas -, tenha pregado mais de três mil sermões.

 Bibliografia

COSTA, Hermisten. Pensadores cristãos. Calvino de A a Z. São Paulo: Vida Acadêmica, 2006, p. 41.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *