A pregação não pode prometer a solução de todos os problemas!

Entendendo o sofrimento biblicamente

Por Bruce Ware

Uma vez que a Bíblia é a única fonte final e plena para a fé e prática cristã, a pergunta mais crucial que se pode fazer é: será que o ponto de vista aberto reflete com precisão o que a Bíblia ensina? Ainda que se possa dizer muito mais, este breve resumo bastará para mostrar que muitos dos ensinamentos bíblicos centrais a respeito do sofrimento simplesmente não podem ser explicados pela visão aberta e, por essa razão, a fé e a esperança cristã ficarão prejudicadas por onde quer que o teísmo aberto for seguido. Considere os seguinte princípios bíblicos:

  1. O sofrimento não é, em si mesmo, um bem essencial. Nesse ponto, os teístas abertos e os cristãos tradicionais concordam. As Escrituras são mais claras: Deus é bom e somente bom! O Salmo 5.4 afirma “Tu não é um Deus que tenha prazer na injustiça, nem o mal habita contigo” (cf. Sl 11.5-7;92.15); e o Salmo 107.1 exorta: “Rendei graças ao Senhor, pois ele é bom; seu amor dura para sempre” (cf. Sl 100.5; 106.1; 136.1). A Bíblia é igualmente clara ao afirmar que a criação de deus era, como Deus, boa e somente boa. “E Deus viu tudo quanto fizera, e era muito bom. E foram-se a tarde e a manhã, o sexto dia” (Gn 1.31). Fica claro também que, na futura recriação divina a que chamamos céu, todo mal, sofrimento e dor desaparecerão por completo. Apocalipse 21.3,4 declara: “ E ouvi uma forte voz, que vinha do trono e dizia: O tabernáculo de Deus está entre os homens, pois habitará com eles. Eles lhes enxugará dos olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porque as primeiras coisas já passaram” (cf. Ap 22.1-5). Devemos afirmar, portanto, que o mal não pode ter espaço nem na própria natureza de Deus, nem na ordem criada por Deus (da forma como ele a criou no princípio), nem no céu que Deus recriará. O sofrimento, então, não é algo essencial à natureza de Deus ou da criação dele.
  2. Contudo, o sofrimento com frequência é ordenado por Deus e intencionalmente usado por ele como um bem instrumental. Ou seja, embora o sofrimento não seja, só em si mesmo, algo bom, pode às vezes servir a bons propósitos, como instrumento nas mãos de Deus. Esses bons propósitos muitas vezes estão por trás do sofrimento, como parte do desígnio de Deus para as pessoas. Certamente esse é um ponto crucial em que os teístas abertos se afastam da tradição da igreja na questão do sofrimento. Enquanto os teístas abertos reivindicam que o sofrimento não é designado por Deus e não possui por trás de se nenhum bom propósito planejado, os cristãos ortodoxos têm sustentado, ao longo dos séculos, que Deus de fato designa ao menos algum sofrimento com o propósito deliberado de trazer algum bem por meio dele.

Considere alguns exemplos das Escrituras em que vemos Deus empregando a dor e a aflição como seus instrumentos para o bem. Em primeiro lugar, o sofrimento pode às vezes ser o meio designado e escolhido por Deus para trazer juízo sobre aqueles que se opõem a ele, culminando até em morte, caso a dureza do coração persista (e.g., Nm 16.31-35,41-50; Is 10.5-19). Em segundo lugar, semelhantemente, Deus designa certo dose de dor como ferramenta de disciplina para chamar filhos teimosos de volta a ele (e.g., Pv 3.12; Hb 12.10). Conforme disse C. S. Lewis, o sofrimento é “o megafone” de Deus chamando corações rebeldes. Em terceiro lugar, a aflição pode ser escolhida por Deus almejando o crescimento e o fortalecimento da fé dos cristãos (e.g., Rm 5.3-5; Tg 1.2-4). Em quarto, a aflição pode expor tal ponto da fraqueza humana que a força e a glória de Deus se tornem mais evidentes (e.g., 2Co 4.8-12; 12.8-10). Quinto, a aflição pode ser dada por Deus de modo que os cristãos sejam mais habilitados a servir a outros que, do mesmo modo, experimentam dor e sofrimento na vida (e.g., 2Co 1.3-7). Em sexto lugar, o sofrimento é simplesmente uma parte necessária do discipulado cristão, no sentido de que seguir o caminho que Cristo andou implicará sofrimento, a fim de provar e testar nossa lealdade e esperança nele, e nele somente (e.g., Jo 15.18-20; Fp 3.10; 2Tm 3.12).

  1. Em particular, Deus prometeu a seus filhos que nada lhes sobrevém a não ser que tenha sido ordenado e seja usado por ele para o bem último deles. Romanos 8.29 apresenta promessa tão preciosa, tão confortadora, que se torna inimaginável alguém negá-la e, ao mesmo tempo, afirmar a fé cristã: “Sabemos que Deus faz com que todas as coisas concorram para o bem daqueles que o amam, dos que são chamados segundo o seu propósito”. Assim, quando Sanders diz: “Deus não tem em mente propósito específico para esses eventos [trágicos]” e Boyd afirma em relação à traição que Suzanne experimentou: “ Ela não teve de abandonar toda a confiança em sua habilidade de ouvir a Deus e não teve de aceitar que, de algum modo, deus pretendeu essa provação “para o bem dela”, os conselhos dos teístas abertos privam-nos de toda esperança e confiança em Deus intencionadas pelas Escrituras. Repetidamente, por toda a Bíblia, seja pela história de Jó ou José ou Davi ou Daniel ou Jesus ou Paulo ou Pedro ou a de muitos outros, a mensagem é clara: Deus orquestra e usa o sofrimento na vida de seus filhos com a finalidade de oferecer-lhes algum tipo de bem final (e, por vezes, imediato). Deus designa bons propósitos por meio do sofrimento, mas os cristãos ficam privados dessa preciosa segurança com a negação que a visão aberta faz de tão estimada verdade.

Pouco tempo atrás, falei em conferência na qual refletimos bastante sobre como os cristãos devem entender e enfrentar o sofrimento. Durante a sessão de perguntas e respostas, uma cristã sincera indagou: “Sei que devemos dar graças em tudo que nos sobrevém, mas não se espera que agradeçamos por tudo, certo?”. Bom, na verdade, espera-se que sim. A Bíblia ordena ambos os pontos: gratidão em gratidão por tudo o que se passa em nossas vidas (ver 1Ts 5.18 e Ef 5.20, respectivamente). Fica claro que somente isso faz sentido. Se o sofrimento que nos sobrevém for inútil e desnecessário, se Deus não possuir nenhuma boa intenção com ele e se tudo que esse sofrimento trouxer for prejuízo, não existe razão para agradecer no sofrimento e muito menos pelo sofrimento. Não podemos agradecer de verdade em meio ao sofrimento, se pensarmos que não há nada nele que possa motivar a gratidão, que Deus não está na situação (que, na realidade, ele se sente mal por tudo e gostaria de que nada disso tivesse acontecido), que Satanás zomba do que se passa, ciente de que isso não serve para bem algum e só traz prejuízo, e que não há garantia de o sofrimento terminar de maneira diferente do que começou – inútil, insignificante e desprovido de qualquer possível bom propósito (e com razão) desesperarmos nele e por causa dele.

Se, entretanto, as promessas de Deus são seguras; se Deus prometeu que garantirá que todas as coisas concorrerão para o bem (Rm 8.28); se Deus prometeu que “não faltará bem algum aos que buscam ao Senhor” (Sl 34.10; cf. Sl 84.11); e se Deus deseja que possamos compreender seu amoroso compromisso conosco, que é demonstrado quando diz: “Aquele que não poupou nem o próprio Filho, mas, pelo contrário, o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8.32); então, temos bons motivos para agradecer a Deus em e por tudo o que acontece. Deus não falhará; ele reina sobre o sofrimento em nossas vidas e propõe nosso bem por meio de tudo que acontece, assegurando que teremos todo o bem que ele planeja para nós.

  1. Deus está mais preocupado com nosso caráter do que com nosso conforto; com nossa transformação do que com as provações necessárias para levar-nos até onde ele quer que estejamos. Duas passagens entoam essa verdade com ecos que soam como o coro de “Aleluia”, de Handel. Tiago tem a audácia (é o que parece) de dizer a cristãos aflitos e perseguidos: “Meus irmão, considerai motivo de grande alegria o fato de passardes por várias provações, sabendo que a prova da vossa fé produz perseverança; e a perseverança deve ter ação perfeita, para que sejais aperfeiçoados e completos, sem lhes faltar coisa alguma” (Tg 1.2-4). Não fica claro que o entendimento do teísmo aberto acerca do sofrimento não consegue explicar esse texto? De fato, para seguidores do Deus do teísmo aberto, quando o sofrimento acontece, afligimo-nos e Deus se aflige conosco, mas não temos motivo para sentir grande alegria, pois Deus não está no sofrimento e não intenciona nenhum bom propósito por meio dele. Como o teísmo aberto consegue explicar o que foi ordenado por Tiago?

No entanto, através dos séculos os cristãos têm entendido corretamente o porquê de Tiago instruí-los a “considerar motivo de grande alegria” quando o sofrimento e a tribulação vêm. A boa mão de Deus não está ausente, mas presente no sofrimento e por meio dele, de modo que podemos crer e nos apegar à certeza de que Deus usará o sofrimento que experimentamos como meio de fortalecer nossa fé. Longe de encarar as tribulações como inúteis subprodutos de nossa vida em um mundo em que as forças da natureza correm desenfreadas ou em que perversas criaturas livres fazem o que querem na tentativa de arruinar nossas vidas, somos, pelo contrário, instruídos a ver a boa e sábia mão de Deus em todas as provações da vida; dessa maneira, temos esperança.

De modo semelhante, Paulo nos convida a que nos gloriemos nas tribulações, “sabendo que a tribulação produz perseverança, e a perseverança, a aprovação, e a aprovação, a esperança; e a esperança não causa decepção, visto que o amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espirito Santo que nos foi dado” (Rm 5.3-5). O único meio possível de os cristãos se legrarem e não se desesperarem diante do sofrimento é se a boa mão de Deus, retire o bom propósito cumprido pelo sofrimento, retire a formação de caráter, a esperança e a santidade que subjazem ao sofrimento, e você acabará retirando todos os motivos para se gloriar. Somente devido ao fato de Deus intencionar o bem por meio do sofrimento é que os cristãos podem viver conforme ensinam as Escrituras e conforme incontável número de cristãos têm vivido através dos séculos. Por Deus se importar profundamente que nós, como seu povo santo, vivamos em conformidade com o caráter de Cristo (ver Ef 1.4 e Rm 8.29), e por Deus ter considerado sábio e bom escolher os sofrimentos – não que os sofrimentos sejam bons em si mesmos, mas por que trazem embutido em si um propósito que é bom, Sem esse bom propósito, não existe esperança.

  1. Admitir o propósito divino para o sofrimento não exige aceitação passiva do sofrimento. Cristãos que creem que os bons propósitos de Deus se cumprem por meio do sofrimento também percebem que o sofrimento, em si mesmo, não é um bem e, por tanto é correto buscar libertar-se dele. Todavia, ainda que busquem com razão a libertação do sofrimento, os cristãos devem também estar prontos para aceitar e acolher a possibilidade de que o melhor de Deus para nós inclua uma contínua experiência do próprio sofrimento, do qual buscam libertar-se orando de forma correta e fervorosa. A experiência de Paulo é instrutiva nesse sentido. Você deve lembrar-se da descrição de sua luta com a aflição. (2 Co 12.7 – 10)

Portanto, para que eu não tornasse arrogante [por causa das revelações extraordinárias, descritas em 12.1-6], foi me posto um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me atormentar, para que eu não me tornasse arrogante. Pedi ao Senhor três vezes que o tirasse de mim, Mas ele me disse: A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de muito boa vontade me gloriarei nas minhas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por isso, eu me contento na fraqueza, nas ofensas, nas dificuldades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte.

            O mesmo Paulo que exortou os cristãos a se gloriarem “nas tribulações” (Rm 5.3), nesse caso, em meio ao que deve ter sido uma aflição angustiante, procura a Deus com fervor, pedindo para ser libertado do sofrimento que experimenta. Seria isso uma incoerência? De maneira alguma! Pois Paulo sabe que o sofrimento não é algo bom por si mesmo; seu único “bem” decorre daquilo que aprendemos com ele ou do quanto crescemos por causa dele. Assim, Paulo pediu em oração três vezes que Deus tirasse dele aquela aflição. Porém, quando se tornou claro que o espinho na carne, enviado por Satanás, fora na verdade uma ferramenta ordenada por Deus a fim de realizar em Paulo a obra que apenas isso poderia fazer, somente naquele momento Paulo foi capaz de aceitar o sofrimento como parte do bom propósito de Deus em sua vida.

            Observe também a instrutiva tensão entre Paulo vendo a aflição como mensageiro de Satanás e, ao mesmo tempo, orando ao Senhor para removê-la. Se o espinho fosse somente da parte de Satanás, poderia parecer que os teístas abertos estão certos ao afirmar que Deus não tem nada a ver com o mal. Mas, com certeza, essa não era a perspectiva de Paulo. Em meio ao sofrimento, Paulo a princípio não se voltou para Deus em busca de conforto. Pelo contrário, ele pediu a Deus que removesse a aflição, crendo que Deus tinha pleno poder e autoridade sobre a aflição e poderia removê-la, caso desejasse. Enfim, ao mesmo tempo em que essa aflição veio diretamente da parte de Satanás a fim de prejudicar Paulo, indiretamente foi permitida pela intervenção ativa e ordenação soberana de Deus, o único que poderia permitir sua ocorrência, removê-la quando e caso desejasse, e ordenar que Paulo a experimentasse somente se servisse aos bons propósitos que ele (Deus), e não Satanás, designara através disso tudo.

            Somente à luz da confiança de Paulo de que a mão de Deus estava, em última instância, por trás de sua presente experiência de aflição é que ele pôde generalizar o que aprendeu com essa experiência: “Por isso, de muito boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por isso, eu me contento nas fraquezas, nas ofensas, nas dificuldades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.9b,10). Ao mover-se do simples “espinho” de aflição em direção à afirmação de que se gloriará de boa vontade em suas fraquezas (plural) e se contentará com elas, bem como com os insultos, angústias, perseguições e dificuldades (todos no plural), Paulo indica que tais experiências estão, igualmente, debaixo da supervisão e direcionamento providencial divinos. Quando os cristãos buscam a Deus com coração sincero e humilde e ele diz não às suas orações por libertação, podem estar certos de que Deus age dessa maneira pelo bem deles. Somente essa certeza é capaz de explica a atitude conclamada por Paulo de gloriar-se e contentar-se com as fraquezas. Paulo nos diria: Nunca duvide de que Deus está na aflição, de que Deus é por nós e de que seus bons propósitos se cumprem por meio daquilo que ele desejou que passássemos.

            Um princípio final deve ser observado. Note que Paulo orou três vezes por libertação da aflição. Não que “três” seja um número mágico; não é esse o ponto. Antes, orar três vezes, em vez de uma só, indica persistência na oração. Mas orar por libertação três vezes, e não inúmeras vezes, indica a disposição de Paulo para aceitar “não” como resposta e Deus ao seu pedido de alívio. Paulo orou com persistência e perseverança, demonstrando seu anseio de que deus lhe concedesse o que buscava; em seguida, porém, Paulo avaliou a realidade de sua prolongada aflição e passou a ver que Deus lhe concedesse o que buscava; em seguida, porém, Paulo avaliou a realidade de sua prolongada aflição e passou a ver que Deus não o livraria, como esperava. Nesse estágio, toda a atitude de Paulo em relação àquela tribulação inoportuna mudou, Anteriormente, ele a via como indesejada e prejudicial. Dali em diante, ao observar a mão de deus ordenando que ele passasse por isso, a tribulação tornou-se como um presente do amor de Deus por ele. Com certeza, a oração de Paulo para escapar do sofrimento mudara para um anseio por acolher aquele mesmo sofrimento. E preste atenção: não foi mera aceitação da inevitabilidade da aflição. Antes o “gloriar-se” e o “contentar-se” nessa e em outras aflições indicam que Paulo, naquela ocasião, ressaltou sua fraqueza mais pelo bem que realizaria do que pela dificuldade que continuava a trazer-lhe. Essa é a maravilha de saber que a boa mão de Deus sempre está por detrás, e nunca distante, do sofrimento que ocorrer em nossas vidas.

WARE, Bruce A. Teísmo aberto. A teologia de um Deus limitado. São Paulo: Vida Nova, 2010.

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