O desafio de pregar a partir dos Evangelhos

Por D.A. Carson

Das três observações que se seguem, as duas primeiras dizem respeito a se pregar a partir de qualquer dos evangelhos, e a última ao desafio peculiar de fazê-lo com base no evangelho de João. Em todas elas, presumo que o leitor já se tenha dedicado a refletir sobre as relações entre textos antigos e textos contemporâneos, entre palestra expositiva e pregação expositiva (em que as pessoas recebem tanto cutucões como o bálsamo do texto), entre a rigorosa exatidão exegética e a apresentação vívida.

O desafio de pregar a partir dos evangelhos é, em parte, o desafio de pregar com base em uma narrativa. Os melhores seminários ocidentais e congregações teológicas reforçam a propensão cultural para o abstrato e enchem a cabeça dos alunos com a importância de exegeses gramaticais e lexicográficas. Tais exegeses, obviamente, são de enorme importância. Mas para os alunos que não têm pendor por literatura, elas podem gerar o efeito indesejável de colocar o foco na árvore, talvez no terceiro nó do quarto galho de trás da sexta árvore à esquerda, e a floresta permanece sem ser vista, ou talvez não passe de um vago e infeliz desafio. O antídoto é prestar atenção à narrativa – não só à narrativa do evangelho como um todo, mas em cada narrativa dentro dele.

O significado preciso, por exemplo, de João 3.5 não pode ser extraído com propriedade do significado de João 3.1-21; o significado de João 2.4 não pode ser bem apreendido sem que se reflita sobre o significado de João 2.1-11. E claro que também se pode dizer o inverso: o significado de João 3.1-21 gira em torno de 3.5 (e muitas outras coisas também). E o significado da perícope (nome dado a uma unidade individual dentro de um evangelho) 2.1-11 também depende de seu lugar dentro do evangelho como um todo, isto é, o que vem imediatamente antes e depois dele, o fluir do texto e a ambientação do contexto, o lugar da perícope individual dentro de todo o evangelho. Teoricamente, a maioria de nós reconhece essas coisas. Em minha experiência, contudo, pouquíssimos pregadores travam uma luta com essas implicações. Eles, com freqüência, trabalham exclusivamente a partir de pontos atomísticos de gramática para a perícope; raramente trabalham a partir do evangelho através da perícope, em direção a pontos individuais de gramática. Essas duas atividades são necessárias na leitura de qualquer texto, mas essa necessidade é especialmente urgente na narrativa dos textos.

O desafio de se pregar a partir dos evangelhos é fazê-lo dentro da história da redenção. E nesse ponto que, assim temo eu, determinados pregadores, em contextos mais conservadores, inconscientemente tropeçam nos mesmos tipos de erros que alas mais radicais da crítica do evangelho. A crítica do evangelho, como já vimos, dedica tanta atenção às reconstruções imaginativas e detalhadas de comunidades dos evangelistas que o que os evangelistas dizem sobre Jesus ou afirmam que ele disse ou fez recebe pouco destaque. Por diferentes razões, muitos pregadores conservadores ficam tão ocupados em delinear aplicações a suas próprias congregações que a questão principal lhes escapa: “O que esta passagem nos diz a respeito de Jesus?”. Não é uma questão de pietismo irrefletido. Essa é a questão que deve ser feita precisamente porque o material que se está estudando é um evangelho. Para apresentar esse aspecto de modo mais positivo, é imprescindível colocar os evangelhos em seu devido lugar dentro da história da redenção. Embora os evangelhos tenham sido escritos após a maioria das epístolas, o que eles se propõem a reportar o que aconteceu antes de elas serem escritas. Usando uma analogia: dois historiadores competentes que descrevam a Segunda Guerra Mundial, um deles em 1950 e o outro em 1990, terão visões diferentes em relação ao mesmo acontecimento. Em certa medida, pode-se dizer algo a respeito de seus respectivos pontos de vista a partir de suas obras. Mas, em ambos os exemplos, o tópico de suas exposições é a Segunda Guerra, e não as comunidades intelectuais da qual cada um deles emergiu. A analogia é imperfeita, é claro, pois um escritor de evangelho provavelmente interessa-se muito mais pelo testemunho confessional e pela edificação imediata de seus leitores que por uma história contemporânea. Mesmo assim, o ponto é importante, não só para a crítica do evangelho, mas também para o pregador. João escreve seu livro de seu lugar vantajoso, mas ele não esquece que está escrevendo sobre Jesus, o Jesus da história, o Jesus que ministrou, morreu e ressuscitou. Já vimos amplas evidências de que João fazia distinção entre o que os discípulos entenderam durante o tempo do ministério de Jesus e o que eles só foram compreender mais tarde. Isso significa que o pregador deve constantemente refletir sobre o que o evangelista está lhe dizendo sobre Jesus, tanto sobre o que aconteceu “antes” quanto o que os cristãos, auxiliados pelo Espírito, vieram a entender daquela revelação sem paralelo.

Embora haja várias passagens nos Evangelhos que podem ser diretamente aplicadas pelo pregador a sua congregação, em particular, ou à sociedade contemporânea, de forma geral (e.g o mandamento do amor, Jo 13.34,35), há ainda muito mais, cuja aplicação adequada pede reflexão sobre o que a passagem diz sobre Jesus. Com “o que a passagem diz sobre Jesus” não me refiro exclusivamente à pessoa, palavras e feitos de Jesus (embora também não seja menos que isso), mas a tudo o que pode ser conhecido sobre Jesus e seu lugar na história redentora. Como Jesus aparece na “história” da Bíblia? Feito da forma apropriada, a pregação sobre os evangelhos leva a congregação a se aprofundar na Palavra e a encontrar a mais profunda e transformadora aplicação que emerge dessa visão. Em outras palavras, o claro propósito de João, ao escrever o quarto evangelho, não é que seus leitores devem crer, mas que devem acreditar que o Cristo, o Filho de Deus, é Jesus, e que, ao acreditar nisso, eles teriam vida em nome de Jesus. Martelar incessantemente a urgência de acreditar, sem parar para pensar em que João deseja que seus leitores venham a crer e em quem ele quer que eles confiem, é trair o evangelho de João. Pregar com base nos evangelhos é, acima de tudo, um exercício de exposição e de aplicação da cristologia.

Mesmo assim, aqueles que se propõem a expor o evangelho de João, em vez de um dos sinóticos, freqüentemente se vêem às voltas com vãs repetições. A visão de João é menos abrangente que os demais evangelhos. Por toda a riqueza de sua apresentação de Jesus, sua própria aplicação, feita, vez após vez, com força motriz, diz respeito ao que os leitores devem crer. Muitos pregadores iniciaram uma série de exposições sobre esse livro e acabaram por julgá-la maçante, mesmo a seus próprios ouvidos, e a abandonaram por volta do capítulo 7, 9, ou coisa parecida. Duas sugestões resolvem plenamente esse problema. A primeira foi expressa sob esse último aspecto mencionado: a série de pregações deve se concentrar na figura de Jesus, na insondável riqueza cristológica que há nesse evangelho. A segunda sugestão é escolher uma base de texto relativamente ampla para cada sermão. Se um pregador leva seis semanas para expor o Prólogo (1.1-18) e está verdadeiramente transmitindo uma mensagem com conteúdo, grande parte do material está sendo “encompridado”. Muito melhor é esgotar o prólogo em um sermão, completar o capítulo 1 na semana seguinte e continuar em um bom ritmo de modo que, enquanto um pregador lento estiver apresentando os comentários finais sobre 1.51, você já estará no discurso de despedida.

BIBLIOGRAFIA

CARSON, D.A. O Comentário de João. São Paulo: Editora Shedd, 2007, p.107

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