21 dez '15
Você precisa reacender as chamas domingo após domingo   Por Mark Buchanan Amo pregar. Odeio pregar. A melhor descrição está [...]

Você precisa reacender as chamas domingo após domingo  

Por Mark Buchanan

Amo pregar. Odeio pregar. A melhor descrição está em Jeremias: é como fogo nos ossos. E trabalho santo e trabalho terrível. Deixa exausto, mas alegra; entusiasma, mas consome.

Nas segundas feiras, sou restos chamuscados. Quanto mais queimei no domingo — quanto mais preguei com convicção ardente e esperança radiante — mais queimado e arrasado estou na segunda. Estou agitado, mas não tenho iniciativa para fazer nada ou, se tenho, falta a energia para me sustentar nisso. Estou exausto, morto de cansado, experimentando o que muitos Pais da Igreja no deserto chamaram de acedia ou prostração: um amortecimento interno provocado pelo intenso calor do sol.

O pior de tudo, a segunda-feira é vivida com a consciência de que eu preciso fazer tudo isso de novo no domingo seguinte. As segundas-feiras são os dias em que eu preferiria vender sapatos.

Mas então o domingo vem, e os ossos ardem novamente. Sou mais uma vez um tição recém-aquecido nas mãos de Deus. Se eu não prego, fico com uma tristeza dolorida. Eu me irrito mais com não pregar do que com pregar. “Mas, se eu digo: ‘Não o mencionarei nem mais falarei em seu nome’, é como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim. Estou exausto tentando contê- lo; já não posso mais!” (Jr 20.9). Assim, amo a pregação e a odeio.

A surpresa é que dez anos de pregação não diminuíram isso. Isso tem, na verdade, aumentado e intensificado. Todo domingo há a paixão, se eu prego, e a dor, se não prego. Na segunda, tanto faz, há um caminho intimidador — tanto por ser muito longo quanto por ser muito curto — que preciso trilhar até o domingo seguinte. Pregar não é trabalho. E fogo.

Como devemos viver com esse ciclo de fogo e cinzas e fogo novamente?

Pregação quando começa a faltar oxigênio

Essa situação, no mundo físico, refere-se ao fenômeno em que um fogo diminuiu porque queimou todo o oxigênio na sala — então, se de alguma forma surge uma abertura na sala — uma porta é aberta ou o teto é perfurado pelo próprio fogo — ar carregado de oxigênio entra com força e causa uma explosão. Vento fresco encontra um fogo quase morrendo e novamente está furiosamente flamejante.

Esse fenômeno físico é uma boa metáfora para o chamado para a pregação. E exatamente o que eu descrevi: o que extingue tudo que está dentro e quase apaga a si mesmo; depois, o fogo encontra vento fresco e se expande novamente. Saben- do que isso é o modelo do resto da minha vida, tenho me tornado desesperado por disciplinas que me ajudem a viver com isso. Aqui estão três.

Espere interrupções divinas

O sermão tem o poder hipnótico da sedutora. Ele persuade-me, ordena-me e instiga-me. “Venha para mim”, o sermão sussurra. Quando isso fracassa, ele se torna grosseiro: “Venha aqui agora! Se não…”. Ele freqüentemente habita meu sono, uma vaga ansiedade se arrastando pelos cantos dos meus sonhos. Incontrolável, o sermão se torna uma obsessão.

Não tenho uma grande história de vitória pessoal para relatar aqui. A melhor coisa que eu encontrei foi a prática da confiança em Deus quanto ao meu tempo. Jesus estava sempre sendo interrompido — por homens cegos, leprosos, fari- seus que se encontravam com ele à noite, pais desesperados com filhos endemoninhados ou morrendo, mulheres pecadores pegas em adultério ou colocando perfume em seus pés. E ele estava sempre interrompendo outros — coletores de impostos contando dinheiro, pescadores remendando redes ou puxando-as para cima, perseguidores indo para Damasco. Muito de seu ministério transformador aconteceu por meio de interrupções.

Muitos de nós que pregamos somos os sacerdotes e levitas na história que Jesus contou do bom samaritano. Estamos tão inflexivelmente focados nos nossos deveres com o templo que perdemos o que Deus tem para nós à beira da estrada. A única cura que conheço é o comprometimento diário e intencional da espera por Deus nas interrupções. (Enquanto eu escrevia isto, Deus interrompeu a minha agenda três vezes. Dois telefonemas, um de um homem à margem da fé salvadora e precisando de um pouco de atenção extra; o outro de um homem de outro credo interessado em realizar um trabalho para a igreja. A terceira interrupção foi de uma mulher pedindo alimento. Ela e seu filho não tinham nada para comer. “Eu vim a você faminto . Jesus disse. “Você percebeu?”. Eu estava tão ocupado que quase não percebi). Viver uma teologia de interrupções abre minha alma para o vento fresco que reacende a minha chama.

Busque o silêncio

Existe um parágrafo lindo na biografia que Carl Sandburg escreveu sobre Abraham Lincoln na qual descreve os primeiros anos de Lincoln e o segredo de sua força posterior: “Na solidão da mata, ele convivia com árvores, com o rosto do céu aberto e a água nas diferentes estações, com aquela ferramenta individual de um homem só, o machado. O silêncio o tomou para si mesmo. Na sua formação, o elemento do silêncio foi imenso”.

Nosso mundo não é como o de Lincoln; está atravancado de imagens, retinin- do de todos os tipos de barulhos, ininterruptamente agitado. A floresta desapareceu, e o refúgio não tem mais lugar. Agora, os que querem manter o silêncio precisam buscá-lo.

Perto de onde moro, existe um rio que nasce em um grande lago. O rio faz curvas como um labirinto em seu caminho de descida para o oceano. É ali que eu vou para ter silêncio. No verão, nado. No outono, pesco. No inverno e na primavera, caminho na areia da margem do rio. Ali eu ouço.

Como uma noite escura faz com que as estrelas brilhem mais, assim a espera no silêncio dá às palavras clareza e brilho. Eu vou àquele lugar cansado de palavras, mas ressurjo novamente pronto para ouvir e falar uma palavra no tempo certo.

Conecte com os elementos

A pregação é elementar. Há água, vento, terra e fogo. A pregação nasce do fogo. Aquele fogo é alimentado, não abafado, pela água do Espírito, intensificado pelo vento do Espírito e, então, misturado nos elementos terrenos da carne e dos ossos. Viver no ritmo e estrutura do fogo requer que eu também viva com a terra, o vento e a água.

Minha busca pelo silêncio no rio em parte serve para isso. Mas há mais. Eu trabalho com madeira. Ando de bicicleta. Faço jardinagem. Nado em rios de corredeiras frias e oceanos de ondas bravas. Toco a terra, mergulho na água, vou até os espaços abertos onde o vento acaricia ou esmurra. Conecto de novo o que está dentro de mim com o que está fora, minha mente com meu corpo e meu corpo com o seu ambiente.

Fazer jardinagem dessa maneira é maravilhoso. As palavras “humano”, “hu- milde” e “húmus” compartilham a mesma raiz. Jardinar é algo adámico, é tocar o húmus do qual somos feitos. Isso é humildade e humanização.

Existe algo em colocar a semente e o bulbo na terra, em podar os galhos até o branco do caule e observar a gota de seiva se formando no lugar do corte, em colocar o adubo e ver as minhocas se retorcendo na terra, cheirar a grama cortada ou os ga- lhos queimados, comer cenouras recém-arrancadas ou pêssegos que acabam de ser colhidos — existe algo nisso tudo que me ajuda a aceitar minha humanidade nova- mente.

E também existe algo nisso tudo que me ajuda a encontrar novamente, inesperadamente, o Cristo ressurreto, como Maria Madalena pensando que ele era o jardineiro.

Não precisa ser necessariamente jardinagem, é claro. Pescar, caminhar, fazer pão, construir casas de passarinho ou rebocar uma parede — qualquer coisa que conecte de novo nossa mente com nosso corpo, e nosso corpo com os elementos.

Cinzas quentes da segunda-feira

Eu escrevi isso em uma segunda-feira fria de inverno. Antes de começar, fiz um fogo no forno à lenha perto da minha escrivaninha. Cortei uma casca de pinheiro com seiva incrustada em pequenos tocos, coloquei isso no jornal da semana ante- rior amassado em cima de uma base grossa de cinzas brancas e cinzas escuras (os restos de muitos fogos) e joguei o fósforo. Depois que consegui fazer o fogo pegar, coloquei vários pedaços de pinheiro e cedro amarelo em forma cruzada, fechei as portas do forno e ajustei os abafadores.

Depois me sentei para escrever. Quando havia quase terminado, percebi que a sala tinha esfriado. Levantei para verificar o fogo. Abri o forno e primeiro só vi escuridão e fumaça negra. Eu havia fechado demais os abafadores, e o fogo estava quase apagado. Os cepos de lenha estavam ali, parcialmente queimados, inertes, fumegando. Mas isso apenas durou um momento.
Em forma de redemoinho entrou ar pela porta aberta, o ar soprou um pouco na lenha e a incandesceu. Subitamente, ela pegou fogo. As chamas saltaram de repente e a lenha começou a estalar com o calor delas.

Pregação quando começa a faltar oxigênio

É segunda, mas o domingo está chegando. Eu não estou pronto para pregar de novo. Aliás, neste exato momento, não quero pregar nunca mais. Sinto-me como lenha parcialmente queimada em cinzas frias. Mas não quero me preocupar com isso. Sei que Deus abrirá as portas novamente, deixará o ar entrar com força.
E o que faço agora? Vou lá fora cortar lenha.

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