09 jul '14
Por Michel Augusto Uma análise da pesquisa de Magali do Nascimento O Brasil tem vivenciado uma transformação em todos os [...]

Por Michel Augusto

Uma análise da pesquisa de Magali do Nascimento

O Brasil tem vivenciado uma transformação em todos os sentidos.  Historicamente, a igreja também passa por essa metamorfose. Os traços distintivos para a compreensão do movimento gospel é o anseio pela modernidade e respectivas influências da tecnologia, da mídia, do mercado e da política, conforme destaca Magali do Nascimento.


Da pregação à musicalidade, um novo estilo religioso foi estabelecido. As comunidades conhecidas como tribos urbanas foram alcançadas, mas ao mesmo tempo foram bombardeadas com uma influência neopentecostal conforme essas novas propostas. Essa nova maneira religiosa de ser, inclui desde uma mensagem com trejeitos de confissão positiva até uma musicalidade de acordo com a nova performance dos movimentos com a nomenclatura gospel.

No tocante à explosão gospel no Brasil, no seu bojo foi trazida uma nova proposta musical, tendo sua ênfase firmada do século XX para o XXI. Conjuntamente, o movimento gospel trouxe um empobrecimento musical ao lançar fora a biblicidade, gerando assim uma versão cantada da pregação da prosperidade em músicas sem uma análise bíblica com critérios histórico-gramatical apurada. O projeto cristocêntrico lançado pelos reformadores foi substituído por uma liturgia antropocêntrica, isto é um misto de pregação e musicalidade totalmente desvencilhado do Evangelho!

Schalk relata que o reformador “Lutero foi o único entre os reformadores do século XVI a defender a música como uma maravilhosa dádiva de Deus a ser usada no louvor e na pregação da sua palavra”. Calvino ensinou que a “pregação do evangelho era o centro da vida e obra da igreja”

Conforme análise da professora Magali do Nascimento Cunha, esse novo estilo religioso mudou a cultura do cristianismo protestante e católico romano. Numa análise conforme as ciências humanas, o movimento gospel é algo que está correlacionado às questões da pós-modernidade e os efeitos do consumo e entretenimento.

Conforme entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos, a autora relata que vários estudiosos do fenômeno indicam que esse processo foi, então, favorecido pela conjuntura de crise das utopias, com a derrocada do regime socialista (até então defendido teologicamente pela chamada pastoral popular como a opção mais justa), os efeitos da década perdida (1980), com o avanço da pobreza e dos processos de exclusão social, e o oferecimento de alívio para as agruras da vida por parte dos pentecostalismos com as práticas de cura e exorcismo e a pregação da prosperidade financeira como fruto de desenvolvimento espiritual. O Brasil passa a experimentar uma intensa pluralidade religiosa, que se torna cada vez mais visível pela presença dos vários grupos nas mídias.

A obra em comento, faz uma análise histórica que remonta aos anos 50 e 60, percorre as gerações dos anos 80 até o firmamento do movimento no ano 2000. O movimento em análise é discutido conforme a metodologia das ciências humanas.

A professora Magali do Nascimento desenhou um quadro tendo em vista a correlação entre a pesquisa de campo e o processo interdisciplinar. Neste aspecto, o movimento gospel delineia um novo fenômeno religioso. A consequência natural desse processo é a culturalização no formato proposto pela autora. A explosão desse movimento é relacionado com a irrupção de igrejas neopentecostais no final dos anos 80, tais como, a Renascer em Cristo.

Tal denominação chancelou a expressão e trouxe uma proposta contemporânea e um estilo informal de liturgia cultual. As consequências trágicas do movimento estão em voga através do consumo e entretenimento evangélico e danos diversos na percepção acerca do Evangelho de Jesus Cristo. A mensagem pregada por Cristo e vivenciada com vigor pelos reformadores tem sido substituída por um novo modo de ser, que contradiz a principiologia bíblica e o pano de fundo histórico neotestamentário.

A pesquisadora Magali nos fornece mais fundamentos em outra entrevista concedida para revista cristianismo hoje. Ela relata o surgimento de teologias que resultam deste predomínio da lógica do mercado na cultura dos povos. A teologia da prosperidade, que apregoa o sucesso material, especialmente o financeiro, como resultado da bênção de Deus, é fruto disso. A confissão positiva, do “eu que tudo pode” – então, a bênção passa a ser resultado do esforço pessoal –, e a noção da guerra espiritual, que combate as forças espirituais malignas que prejudicam o homem, também. Mas não é só isso. Existe a idéia de que, ao comprar um produto de orientação cristã, o crente não está só adquirindo um bem, mas chegando mais perto de Deus. Ou seja, o caráter sagrado atribuído aos produtos cristãos os tornam uma espécie de mediadores entre Deus e o consumidor. Por isso, as pessoas compram adesivos para que seu carro seja protegido do mal ou adquirem camisetas que vão guardá-las de infortúnios. Isso sem falar em gente que compra um CD daquele cantor “abençoado”, acreditando que ouvir as músicas pode até proporcionar uma cura.

Por fim, conforme magistério dos reformadores, precisamos compreender que a musicalidade cristã é uma das expressões da exposição do Evangelho de Cristo. Se essa vertente tiver uma aplicabilidade correta, as comunidades serão influenciadas por uma cultura bíblica que freará os impulsos da manipulação no processo da evangelização.

REFERÊNCIAS

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado – 8 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004.
CATÃO, Francisco. Espiritualidade Cristã. São Paulo: Paulinas, 2014.
BENKE, Christoph. Breve história da Espiritualidade Cristã. São Paulo: Santuário, 2011.
CUNHA, Magali do Nascimento. A explosão gospel: um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X: Instituto Mysterium, 2007.
EBERLE, Soraya. Sobre o uso da música e a espiritualidade: a tensão entre canto comunitário e música de performance. In: Brandenburg, Laude Erandi et al. Fenômeno Religioso e Metodologias: VI Simpósio de Ensino Religioso. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2009.
HOJE, Cristianismo. Revista cristã. Entrevista concedida por Nascimento Cunha: São Paulo, 2012.
KIRST, Nelson. Liturgia. Teologia Prática no contexto da América Latina. São Leopoldo RS: Sinodal, 1998.
UNISINOS, Instituto Humanitas. Entrevista concedida por Magali do Nascimento Cunha: São Leopoldo, 2007.
SCHALK, Carl F. Lutero e a música. Paradígmas de Louvor. São Leopoldo: Sinodal, 2011.
SPADARO, Antonio. Ciberteologia: Pensar o Cristianismo nos tempos da rede. São Paulo: Paulinas, 2012.
TEIXEIRA, Evilázio. Espiritualidade e Qualidade de Vida. Contribuição de Urbano Zilles. Porto : Edipucrs

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