28 maio '15
Enxofre para os liberais Por Timothy Keller O homem ainda muito jovem, no meu escritório, estava vestido de forma impecável [...]

Enxofre para os liberais

Por Timothy Keller

O homem ainda muito jovem, no meu escritório, estava vestido de forma impecável e era bem articulado. Era estudante de MBA da Ivy League, bem sucedido no mundo financeiro, e já tinha morado em três países antes dos 30 anos de idade. Criado em uma família com laços apenas superficiais com uma igreja tradicional histórica, tinha pouca compreensão do cristianismo.

Por isso, fiquei bem feliz ao saber do seu grande interesse espiritual, despendo havia pouco tempo quando começou a participar da nossa igreja. Ele disse que estava pronto para abraçar o evangelho. Mas havia um último obstáculo “Você tem dito que se não crermos em Cristo”, disse ele, “estamos perdidos condenados. Desculpe, mas não consigo engolir isso. Trabalho com algumas pessoas de fino trato que são muçulmanas, judias ou agnósticas. Não posso acreditar que elas estão indo para o inferno só porque não crêem em Jesus. Aliás, não posso harmonizar nem mesmo a idéia de inferno com um Deus amoroso — mesmo que ele seja também santo”.

Esse jovem expressou o que talvez seja a principal objeção que as pessoas seculares da atualidade fazem à mensagem cristã. (Quase empatado com isso está na minha experiência, o problema do sofrimento e do mal). Muitos hoje rejeitam a idéia do juízo final e do inferno.

Assim, é tentador evitar esses tópicos na nossa pregação. Mas negligencia doutrinas desagradáveis da fé histórica trará conseqüencias antiintuitivas. Há um equilíbrio ecológico da verdade bíblica que não pode ser transtornado.

Se uma área está livre de seus predadores ou animais indesejáveis, o equilíbrio desse meio ambiente pode ficar tão perturbado que as plantas e os animais desejáveis ficam perdidos — por meio de procriação acima da provisão de alimento. O predador odioso que foi eliminado na verdade mantinha em equilíbrio o número dos outros animais e plantas necessários para aquele ecossistema específico. Da mesma forma, se negligenciarmos doutrinas “más” ou duras da fé cristã histórica, descobriremos que esvaziamos também todas nossas crenças agradáveis e confortáveis.

A perda da doutrina do inferno e do juízo e da santidade de Deus causa uma perda irreparável aos nossos mais profundos consolos — nossa compreensão da graça de Deus e do seu amor, e da nossa dignidade humana e do valor que damos a ele. Para pregarmos as boas novas precisamos pregar as más novas.

Mas nesta época de tolerância, como fazer isso?

Como pregar o inferno a tradicionalistas?

Antes de pregar sobre o tópico do inferno, preciso reconhecer que hoje uma congregação comum é constituída de dois grupos: os tradicionalistas e os pósmodernos. Os dois ouvem a mensagem sobre o inferno de maneira totalmente diferente.

As pessoas de culturas e cosmovisões tradicionais tendem a ter (1) fé em Deus e (2) um sentimento forte de absolutos morais e a obrigação de serem boas. Essas pessoas tendem a ser mais velhas, de origem fortemente católica ou oriundas de um contexto religioso judaico, de origem evangélica/pentecostal protestante, do sul dos Estados Unidos, e imigrantes de primeira geração de países não-europeus.

A forma de mostrar a pessoas tradicionais a sua necessidade do evangelho é dizer: “Os seus pecados separam você de Deus! Você não pode ser suficientemente justo para ele”. A imperfeição é o pavor da pessoa que adora por obrigação. Os tradicionalistas são motivados para seguir a Deus pela idéia do castigo no inferno. Eles percebem a seriedade do pecado. Mas os tradicionalistas talvez respondam ao evangelho apenas por medo do inferno, a não ser que lhes mostre que Jesus experimentou não somente a dor em geral na cruz, mas o inferno em particular. Isso precisa ser destacado até que eles sejam atraídos a Cristo pela beleza do amor precioso do que ele fez. Para a pessoa tradicional, o inferno precisa ser pregado como a única forma de se conhecer o quanto Cristo amou você.

Aqui está um exemplo de como preguei essa verdade: A não ser que lidemos de forma satisfatória com essa terrível doutrina, nunca vamos nem mesmo começar a compreender a profundidade do que Jesus fez por nós na cruz. O seu corpo estava sendo destruído da pior forma possível, mas isso foi uma picada de mosca em comparação ao que estava acontecendo à sua alma. Quando ele gritou que o seu Deus o havia abandonado, ele estava experimentando o próprio inferno.

Se um conhecido denuncia e rejeita você — isso dói. Se um amigo faz a mesma coisa — a dor é muito pior. No entanto, se a sua esposa ou marido vira a cara para você e diz: “Nunca mais quero ver você”, isso é muito mais devastador ainda. Quanto mais longo, profundo e íntimo for o relacionamento, tanto mais dolorida será a separação.

Mas o relacionamento do Filho com o Pai não teve começo e era infinitamente mais significativo do que o relacionamento humano mais íntimo e apaixonado. Quando Jesus foi cortado da comunhão com Deus, entrou no abismo mais profundo e na fornalha mais potente, além de toda imaginação. E ele fez isso voluntariamente, por nós.

Como pregar o inferno a pós-modernos?

Em contraste com os tradicionalistas, a pessoa pós-moderna é hostil até mesmo à idéia do inferno. Pessoas com a cosmovisão mais secular e pós-moderna tendem a (1) ter somente uma crença vaga no divino, se é que tem, e (2) pouca percepção dos absolutos morais, mas antes um sentimento de que precisam ser fiéis aos seus sonhos. Tendem a ser mais jovens, de origem católica nominal ou de origem judaica não-religiosa, oriundos de igrejas denominacionais protestantes históricas liberais, do oeste e nordeste dos Estados Unidos e de origem européia.

Quando prego o inferno a pessoas com essa cosmovisão, descobri que preciso usar quatro argumentos:

  1. O pecado é escravidão

Não defino o pecado simplesmente como a violação de regras, mas também como “tornar algo além de Deus o meu valor definitivo”. Essas coisas boas, que se tornam deuses, perseguem-nos implacavelmente, escravizando-nos mental e espiritualmente, até mesmo para o inferno eterno, se permitirmos. Digo: “Você, na verdade, está tentando ser religioso, embora você mesmo não o perceba — você está tentando encontrar a salvação por meio da adoração de coisas que acabam controlando você de forma destrutiva”. A escravidão é o pavor da pessoa que adora por escolha. Os retratos que C. S. Lewis faz do inferno são importantes para pessoas pós modernas. Em O Grande Abismo, Lewis descreve um ônibus cheio de pessoas do inferno que vêm às cercanias do céu. Ali são instadas a deixar para trás os pecados que as fizeram cair na armadilha do inferno. As descrições que Lewis faz das pessoas no inferno são tão marcantes porque reconhecemos a negação e o auto-engano da dependência química. Quando viciados em álcool, somos miseráveis, mas culpamos os outros e temos pena de nós mesmos; não assumimos responsabilidade pelo nosso comportamento nem vemos a raiz do nosso problema. Lewis escreve: O inferno […] começa com uma atitude de murmuração, e você mesmo ainda se mantém distinto dela: talvez até criticando-a […]. Você pode se arrepender e sair disso de novo. Mas pode vir um dia em que você não mais conseguirá fazê-lo. E aí não sobrará nada de você para criticar a atitude nem mesmo para desfrutá-la, mas só a própria murmuração que não pára nunca, como uma máquina. Pessoas modernas têm dificuldade com a idéia de Deus desenvolver castigos para infligir a pessoas desobedientes. Quando o pecado é visto como escravidão e o inferno como a região dos vagabundos do universo habitado eternamente pelos que o escolheram, o inferno se torna muito mais compreensível.

 Aqui está um exemplo de um sermão recente de como tento explicar isso: Primeiro, o pecado nos separa da presença de Deus (Is 59.2), que é a fonte de toda a alegria (SI 16.11), amor, sabedoria ou coisa boa de qualquer tipo (Tg 1.17) […] Em segundo lugar, para entendermos o inferno precisamos entender o pecado como escravidão. Romanos 1.21-25 nos conta que fomos feitos para viver para Deus da melhor maneira possível, mas, em vez disso, vivemos para o amor, o trabalho, a realização ou a moralidade para nos dar sentido e valor.

 Assim, todas as pessoas, religiosas ou não, estão adorando alguma coisa — ídolos, pseudo-salvadores — para obterem o seu valor. Mas essas coisas nos escravizam com culpa (se não as obtemos) ou raiva (se alguém nos impede de obtê-las) ou medo (se são ameaçadas) ou compulsividade (visto que precisamos obtê-las). Culpa, raiva e medo são como o fogo que nos destrói. Pecar é adorar qualquer coisa além de Jesus — e o salário do pecado é a escravidão.

Talvez o maior paradoxo de todos seja que as pessoas no ônibus do inferno deque fala Lewis sejam escravas porque livremente fizeram essa escolha. Preferiram ter a sua liberdade (como elas a definem) à salvação. A ilusão implacável delas é que se glorificassem a Deus, perderiam a sua grandeza humana (Gn 3.4,5), mas, na verdade, a sua escolha arruinou a sua grandeza humana. O inferno é, como diz Lewis, “o maior monumento à liberdade humana”.

  1. O inferno é menos exclusivo do que a chamada tolerância

 Nada caracteriza melhor a cosmovisão moderna do que a afirmação: “Penso que Cristo é ótimo, mas creio que um muçulmano ou budista devoto, ou mesmo um bom ateu, certamente vão achar a Deus”. Outra versão ligeiramente diferente é: “Não acho que Deus iria enviar uma pessoa que vive uma vida correta ao inferno só porque ela tem a crença errada”. Essa abordagem é considerada mais inclusiva.

 Ao pregar sobre o inferno, então, preciso contrariar esse argumento: A religião universal da humanidade é: nós desenvolvemos um bom histórico e o entregamos a Deus, e aí ele fica devendo para nós. O evangelho é: Deus desenvolve um bom histórico e o entrega a nós, e, depois, ficamos devendo para ele (Rm 1.17). Em resumo, dizer que pessoas boas, não somente os cristãos, podem achar a Deus é dizer que as boas obras são suficientes para se achar a Deus.

 Você pode crer que a fé em Cristo não é necessária ou pode crer que somos salvos pela graça, mas não pode crer nas duas coisas ao mesmo tempo.

Assim a abordagem aparentemente inclusiva é, na verdade, bem exclusiva. Ela diz: ‘As pessoas boas podem achar a Deus, e as más não conseguem”. Mas e nós, fracassos morais? Nós estamos fora. O evangelho diz: “As pessoas que sabem que não são boas podem achar a Deus, e as pessoas que pensam que são boas não podem”. Mas então o que dizer dos não-cristãos, todos os quais precisam, por definição, crer que os seus esforços morais podem ajudá-los a achar a Deus? Eles estão fora.

Assim, ambas as abordagens são exclusivas, mas o evangelho é a exclusividade mais inclusiva. Ele declara com alegria: “Não importa quem você é ou o que você fez. Não importa se você esteve na porta do inferno. Você pode ser recebido e abraçado total e instantaneamente por meio de Cristo”.

  1. A perspectiva que o cristianismo tem do inferno é mais pessoal do que a perspectiva alternativa

Com freqüência, encontro pessoas que dizem: “Tenho um relacionamento pessoal com um Deus amoroso, e mesmo assim não creio em Jesus Cristo de forma alguma”. “Por que não?”, pergunto. Elas respondem: “O meu Deus é amoroso demais para descarregar sofrimento infinito sobre alguém por causa do pecado”. Mas ainda assim fica uma pergunta: “O que custou a esse tipo de Deus nos amar e nos abraçar? O que ele sofreu para nos receber? Onde esse Deus agonizou, gritou? Onde estavam os seus pregos e espinhos?”. A única resposta é: “Eu não penso que isso foi necessário”. Como isso é irônico. Nos nossos esforços de tornar Deus mais amoroso, tornamos Deus menos amoroso. O seu amor, no final, não precisou agir. Foi sentimentalismo, e de forma alguma amor.

 A adoração de um Deus assim é impessoal, cognitiva e ética. Não há entrega jubilosa, ousadia humilde, nem sensação constant de maravilhar-se. Não estaríamos cantando a tal ser: “Amor tão admirável, tão divino, busca a minha alma, minha vida, meu tudo”. A abordagem “sensível” pós-moderna do tópico do inferno na verdade é impessoal. Ela diz: “Não importa se você crê na pessoa de Cristo, desde que siga o seu exemplo”. Mas dizer isso é dizer que a essência da religião é intelectual e ética, nãc pessoal. Se qualquer pessoa boa pode achar a Deus, então o cerne essencial da religião é entender e seguir as regras.

Quando prego sobre o inferno, tento mostrar como é impessoal essa abordagem. Dizer que qualquer pessoa boa pode achar a Deus é criar uma religião sem lágrimas, sem experiência, sem contato.

O evangelho certamente não é menos do que a compreensão de verdades e princípios, mas é infinitamente mais. A essência da salvação é conhecer uma pessoa (Jo 17.3). Assim como acontece quando conhecemos uma pessoa, há arrependimento e choro e alegria e encontros. O evangelho nos

convida a um relacionamento de amor íntimo e intensamente apaixonado

com Jesus Cristo, e chama isso de “cerne da verdadeira salvação”.

  1. Não há amor sem ira

 O que irrita as pessoas é a idéia do juízo e da ira de Deus: “Não posso crer em um Deus que manda as pessoas ao sofrimento eterno. Que tipo de Deus amoroso está cheio de ira?”. Assim, ao pregarmos sobre o inferno, temos de explicar que um Deus que não tem ira não pode ser um Deus amoroso. A seguir, apresento um exemplo de como tentei fazer isso em um sermão:

 As pessoas perguntam: “Que tipo de Deus amoroso é esse que está cheio de ira?”. Mas qualquer pessoa amorosa tem momentos em que está cheia de ira. Em Hope Has Its Reasons [A Esperança Tem Suas Razões], Becky Pippert escreve: “Pense como nos sentimos quando vemos que alguém que amamos está sendo devastado por ações tolas ou maus relacionamentos.

 Reagimos com tolerância benigna como poderíamos reagir para com estranhos? Longe disso… A ira não é o contrário do amor. O ódio o é, e a forma final do ódio é a indiferença”. Pippert então cita E. H. Gifford: “O amor humano aqui nos fornece uma analogia verdadeira: quanto mais um pai ama seu filho, mais odeia nele o bêbado, o mentiroso, o traidor”.

 Ela conclui: “Se eu, uma mulher falha, narcisista e pecaminosa, consigo sentir tanta dor e raiva pela condição de alguém, quanto mais um Deus moralmente perfeito que fez essas pessoas? A ira de Deus não é uma explosão mal humorada, mas sua oposição firmada ao câncer do pecado que está comendo as entranhas da raça humana que ele ama com todo o seu ser”. Um Deus como esse Após um sermão recente sobre a parábola de Lázaro e o rico, a sessão de perguntas e respostas do posto de correio estava cheia, com mais pessoas do que o normal. As perguntas e os comentários se concentraram no tópico do juízo eterno.

 Meu coração tremeu quando uma jovem estudante universitária disse: “Participei da igreja toda a minha vida, mas não consigo acreditar em um Deus desses”. O tom dela era mais triste do que desafiador, mas a disposição dela para ficar depois e conversar a respeito do assunto mostrou que sua mente estava aberta.

 Geralmente as perguntas são dirigidas a mim, e as respondo da melhor maneira possível. Mas dessa vez, as pessoas começaram a responder umas às outras. Uma mulher de negócios de mais idade disse: “Bem, não sou lá de ir muito à igreja, e estou um tanto chocada agora. Sempre recusei a idéia do inferno, mas nunca pensei sobre ele como uma medida do quanto Deus esteve disposto a sofrer para me amar”.

Então um cristão maduro fez a conexão com o sermão de um mês antes sobre Jesus no túmulo de Lázaro em João 11. “O texto nos conta que Jesus chorou”, disse ele, “mas ele também ficava extremamente irado diante do mal. Isso tem me ajudado. Ele não é somente um Deus irado, ou um Deus amoroso que chora — ele é os dois. Ele não somente julga o mal, mas ele também sofre o inferno e o julgamento por nós na cruz”. A segunda mulher sinalizou em concordância: “Sim. Sempre pensei que o inferno me mostrava o quanto Deus estava irado conosco, mas não sabia que ele também nos mostra o quanto Deus esteve disposto a sofrer e chorar por nós.

Nunca soube o quanto o inferno me mostrava o amor de Jesus. Isso é comovente É somente por causa da doutrina do juízo e do inferno que a proclamação da graça e do amor de Jesus é tão brilhante e espantosa.

KELLER, Timothy. Pregando o inferno numa época de tolerância. Enxofre para os liberais. In: ROBINSON, Haddon; LARSON, Craig B. A arte e o ofício da pegação bíblica. Um manual abrangente para comunicadores da atualidade. São Paulo: Edições Shedd, 2009, p. 780

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